Um Fusca 1500 nas ruas de Belo Horizonte, em 2024
Especial · Nostalgia

A história do Fusca, ano a ano

Do protótipo feito numa garagem em Stuttgart ao último mexicano de 2003, passando pelos 24 anos como o carro mais vendido do Brasil. E quantos ainda rodam por aqui.

Um Fusca 1500 nas ruas de Belo Horizonte, em 2024. Foto: Sturm (placa desfocada pelo Guia Carros)

Ele nasceu de uma encomenda política na Alemanha dos anos 1930, foi salvo da sucata por um oficial inglês depois da guerra e virou, no Brasil, o carro de quase todo mundo. Ficou 24 anos seguidos como o mais vendido do país, saiu de linha, voltou a pedido de um presidente e saiu de novo. Ainda hoje, quase 2 milhões de Fuscas continuam registrados nos Detrans.

Esta é a história do Fusca, ano a ano: o que aconteceu, o que é lenda e o que os números do Guia Carros contam sobre ele hoje.

  • 21.529.464Fuscas feitos no mundo, de 1938 a 2003
  • 3,3 milhõesfeitos no Brasil, em duas fases
  • 1.939.316ainda registrados no Brasil (julho de 2026)
  • 5ºmodelo mais comum da frota, entre 1.493
1934–1945

O carro do povo que o povo não ganhou

Em 22 de junho de 1934, a associação da indústria automobilística alemã contratou o engenheiro Ferdinand Porsche para projetar um carro barato, para uma família, capaz de rodar nas novas autoestradas. A encomenda vinha do governo nazista, que queria um "carro do povo": Volkswagen, em alemão.

Os primeiros protótipos, V1 e V2, ficaram prontos em outubro de 1935, feitos na garagem da casa de Porsche, em Stuttgart. Vieram depois três VW3, em 1936, e 30 VW30, montados pela Daimler-Benz, que rodaram 2,9 milhões de quilômetros em testes em 1937.

Em 26 de maio de 1938 foi lançada a pedra fundamental da fábrica, numa cidade criada do zero para ela, a atual Wolfsburg. O carro ganhou o nome de KdF-Wagen, da organização nazista de lazer "Força pela Alegria", e mais de 330 mil alemães compraram selos de poupança, de 5 marcos por semana, para garantir o seu. Nenhum recebeu: a guerra começou em 1939 e a fábrica passou a fazer veículos militares, como o Kübelwagen. Durante a guerra saíram só cerca de 630 KdF-Wagen civis, quase todos para dirigentes do regime.

  1. 193422 de junho: Ferdinand Porsche é contratado para projetar o "carro do povo"
  2. 1935Outubro: ficam prontos os protótipos V1 (sedã) e V2 (conversível)
  3. 1936Três VW3 começam os testes
  4. 193730 VW30 rodam 2,9 milhões de km
  5. 193826 de maio: pedra fundamental da fábrica; começa a poupança por selos
  6. 1939Começa a guerra: a fábrica passa a fazer veículos militares
Acampamento à beira de um lago com um KdF-Wagen, em 1938: a vida que a propaganda prometia aos poupadores
Acampamento à beira de um lago com um KdF-Wagen, em 1938: a vida que a propaganda prometia aos poupadores. Foto: Arquivo Federal da Alemanha (Bild 146-1988-019-16)
Modelos do KdF-Wagen numa exposição da Frente Alemã do Trabalho, em 1938
Modelos do KdF-Wagen numa exposição da Frente Alemã do Trabalho, em 1938. Foto: Max Baur / Arquivo Federal da Alemanha (Bild 146-1988-099-21)
Ferdinand Porsche e o ator Heinrich George com um KdF-Wagen, prêmio de um baile da imprensa, em janeiro de 1939
Ferdinand Porsche e o ator Heinrich George com um KdF-Wagen, prêmio de um baile da imprensa, em janeiro de 1939. Foto: Arquivo Federal da Alemanha (Bild 183-E01426)
1945–1980

Salvo pelos ingleses, campeão do mundo

Com a guerra no fim, a fábrica bombardeada ficou sob controle britânico. O major Ivan Hirst convenceu o governo militar, em agosto de 1945, a encomendar 20 mil sedãs para as forças de ocupação. A produção em série começou em 27 de dezembro de 1945: 55 carros até o fim daquele ano.

Dali o carro ganhou o mundo e os apelidos: Käfer (besouro) na Alemanha, Beetle e Bug nos países de língua inglesa. Em 17 de fevereiro de 1972, o Fusca de número 15.007.034, um 1302 S azul-claro, passou o Ford Modelo T e virou o carro mais produzido da história até então. Esse carro está hoje no museu da Volkswagen em Wolfsburg.

Na Alemanha, o fim chegou aos poucos: Wolfsburg parou de fazer o Fusca em julho de 1974, o último sedã europeu saiu de Emden em 19 de janeiro de 1978 e o último conversível, feito pela Karmann, em janeiro de 1980.

  1. 194527 de dezembro: começa a produção em série, sob controle britânico
  2. 197217 de fevereiro: o nº 15.007.034 supera o Ford Modelo T
  3. 1974Wolfsburg para de fazer o Fusca
  4. 197819 de janeiro: último sedã feito na Europa, em Emden
  5. 1980Janeiro: último conversível, da Karmann
Montagem do Fusca em Wolfsburg, em janeiro de 1973
Montagem do Fusca em Wolfsburg, em janeiro de 1973. Foto: Lothar Schaack / Arquivo Federal da Alemanha (B 145 Bild-F038788-0004)
1950–1959

O Fusca desembarca no Brasil

Os primeiros chegaram ao porto de Santos em 11 de setembro de 1950: dez sedãs e duas Kombis, importados pela Brasmotor, que começou a vendê-los em 17 de novembro. Até 1953 a Brasmotor montou quase 2 mil Volkswagen com licença da fábrica alemã.

Em 23 de março de 1953 nasceu a Volkswagen do Brasil, montando carros com peças importadas num galpão alugado na rua do Manifesto, no Ipiranga, em São Paulo, com 12 funcionários.

O grande dia foi 3 de janeiro de 1959: saiu da linha da fábrica Anchieta, em São Bernardo do Campo, o primeiro Fusca feito no Brasil, com motor 1200 de 36 cv e 54% de peças nacionais, o mínimo exigido pela lei. Naquele ano foram vendidos 8.406. Em 1961, o carro já tinha 95% de peças brasileiras.

  1. 195011 de setembro: os primeiros dez Fuscas chegam a Santos
  2. 195323 de março: fundação da Volkswagen do Brasil
  3. 19593 de janeiro: o primeiro Fusca brasileiro sai da fábrica Anchieta
  4. 195918 de novembro: inauguração oficial da fábrica
  5. 1961O Fusca chega a 95% de peças nacionais
1959–1986

O carro do Brasil

Nos anos 1960 e 1970, Fusca virou quase sinônimo de carro. Era simples, barato de manter e aguentava estrada de terra, e cada geração ganhava um pouco mais de motor: o 1300 de 46 cv chegou em 1967, junto com o sistema elétrico de 12 V, e o 1500 de 52 cv, o "Fuscão", em 1970.

O auge foi 1972: as fábricas fizeram 252.209 Fuscas, 45% de todos os carros produzidos no Brasil naquele ano. Em 1974 veio o 1600 S, o "Bizorrão", único esportivo de fábrica do Fusca brasileiro, com dois carburadores e uma tampa do motor exclusiva; durou poucos meses. Em 1979 chegaram as lanternas traseiras grandes, apelidadas de "Fafá", e no começo dos anos 1980, a versão a álcool.

Mas o mercado mudava. Em 31 de outubro de 1986, a Última Série, de 850 carros, encerrou a produção. No ano seguinte, o Gol assumiu a liderança de vendas e acabou com 24 anos de Fusca em primeiro lugar.

  1. 1967Motor 1300 de 46 cv e sistema elétrico de 12 V
  2. 1970Chega o 1500, o "Fuscão", de 52 cv
  3. 1972252.209 produzidos: 45% dos carros feitos no país
  4. 1974O 1600 S, "Bizorrão", com dois carburadores
  5. 1979Lanternas "Fafá", na linha 1980
  6. 1984Freios a disco na frente e cinto de três pontos
  7. 198631 de outubro: a Última Série encerra a produção
Dois Fuscas e um ônibus da linha 208, para o Jacaré, em 1966
Dois Fuscas e um ônibus da linha 208, para o Jacaré, em 1966. Foto: Arquivo Nacional, fundo Correio da Manhã
Variants e Fuscas saindo das fábricas do ABC de trem, pela Santos–Jundiaí, em 1971
Variants e Fuscas saindo das fábricas do ABC de trem, pela Santos–Jundiaí, em 1971. Foto: Rede Ferroviária Federal (RFFSA)

Quantos Fuscas de cada ano ainda estão registrados

Fuscas registrados hoje nos Detrans, pelo ano de fabricação. O buraco entre 1987 e 1992 é o tempo em que ele esteve fora de linha; à direita, o Fusca Itamar.

Fonte: Senatran, frota de 07/2026, organizada pelo Guia Carros. Carros fora desse período e os sem ano informado (155.597) ficam fora do gráfico. Registrado não quer dizer rodando: muitos carros antigos seguem no cadastro sem circular.

Ver em tabela
Ano de fabricaçãoRegistrados
196854.854
196954.714
197069.062
197190.915
1972146.739
1973147.788
1974162.422
1975140.007
1976153.000
1977120.523
1978120.902
1979115.391
1980106.263
198162.230
198251.708
198355.724
198430.115
198532.693
198621.449
198722
19886
19894
19905
19914
19924
19936.189
199417.364
199517.194
19966.428
1993–1996

A volta pedida pelo presidente

Em 1993, o presidente Itamar Franco queria um carro popular mais barato e pediu à Volkswagen, então unida à Ford na Autolatina, que voltasse a fazer o Fusca. O acordo dos carros populares saiu em 4 de fevereiro e, em 23 de agosto de 1993, o próprio Itamar religou a linha da fábrica Anchieta. Foram 30 milhões de dólares de investimento e 800 empregos.

O "Fusca Itamar" tinha motor 1600 com dois carburadores, catalisador, para-brisa laminado e pneus radiais. Durou pouco: foram cerca de 46 mil a 47 mil carros até meados de 1996, com uma série de despedida, a Série Ouro. O último de todos foi montado à mão, depois que a linha já tinha sido desmontada, e entregue em 30 de agosto de 1996.

  1. 19934 de fevereiro: acordo dos carros populares
  2. 199323 de agosto: Itamar religa a linha do Fusca
  3. 1996Meados do ano: fim definitivo no Brasil, com a Série Ouro
  4. 199630 de agosto: entregue o último, montado à mão

Quanto vale um Fusca hoje

Preço na tabela FIPE de hoje para os anos que ela ainda acompanha. Toque no ano para abrir a ficha técnica.

  1. 1985 R$ 26.624
  2. 1986 R$ 30.991
  3. 1994 R$ 45.704
  4. 1995 R$ 43.819
  5. 1996 R$ 47.773

Tabela FIPE de hoje, para carros em bom estado de conservação; um Fusca de coleção pode valer bem mais.

1975–2019

O último, no México

O Fusca foi feito ou montado em mais de 20 países, da África do Sul à Austrália, da Irlanda à Indonésia. Fabricação completa, com motor e carroceria, foi principalmente na Alemanha, no Brasil e no México. Na Nigéria, a montagem começou em 1975, com peças mandadas pela Volkswagen do Brasil.

O México foi o último. Em Puebla, o "Vocho" virou o táxi da capital e continuou em produção até 30 de julho de 2003, quando saiu o último carro da série Última Edición. No total, foram 21.529.464 Fuscas.

O nome continuou em outro carro: o New Beetle, mostrado como conceito em 1994 e lançado em 1998, e depois o Beetle de 2011, vendido aqui como Fusca, com motor 2.0 turbo, entre 2012 e 2016. A produção desse último terminou em Puebla em 10 de julho de 2019.

  1. 1975Começa a montagem na Nigéria, com peças do Brasil
  2. 1994Janeiro: o conceito do New Beetle é mostrado em Detroit
  3. 1998Lançamento do New Beetle
  4. 200330 de julho: o último Fusca, no México
  5. 2012O Beetle chega ao Brasil com o nome de Fusca
  6. 201910 de julho: fim da produção do Beetle
Um Fusca da Última Edición, a série que encerrou a produção no México, em 2003
Um Fusca da Última Edición, a série que encerrou a produção no México, em 2003. Foto: Alfacevedoa

Onde estão os Fuscas hoje

  1. São Paulo 680.15126,0 a cada mil carros do estado
  2. Minas Gerais 269.33627,2 a cada mil carros do estado
  3. Paraná 181.27226,2 a cada mil carros do estado
  4. Rio Grande do Sul 176.91527,9 a cada mil carros do estado
  5. Rio de Janeiro 169.60527,5 a cada mil carros do estado
  6. Santa Catarina 114.69624,4 a cada mil carros do estado
  7. Goiás 56.63918,4 a cada mil carros do estado
  8. Pernambuco 39.66219,5 a cada mil carros do estado
  9. Espírito Santo 36.61921,8 a cada mil carros do estado
  10. Bahia 32.08210,0 a cada mil carros do estado

Senatran, organizada pelo Guia Carros. Mais números da frota do Fusca →

Um Fusca nas ruas de pedra de Paraty (RJ), em 2017
Um Fusca nas ruas de pedra de Paraty (RJ), em 2017. Foto: Mike Peel

O Fusca pelo mundo

Na maior parte do planeta, o apelido é de bicho: besouro, joaninha, tartaruga, sapo.

  • BrasilFuscavem de "Volks", como se pronuncia em alemão
  • AlemanhaKäferbesouro
  • FrançaCoccinellejoaninha
  • ItáliaMaggiolinobesourinho
  • EspanhaEscarabajoescaravelho
  • PortugalCarochabesouro
  • MéxicoVochoapelido carinhoso
  • Estados UnidosBuginseto
  • Reino UnidoBeetlebesouro
  • PolôniaGarbuscorcunda
  • BulgáriaKostenurkatartaruga
  • TurquiaKaplumbağatartaruga
  • IndonésiaKodoksapo
  • FinlândiaKuplabolha
  • DinamarcaBoblena bolha
  • NoruegaBoblebolha
  • República TchecaBroukbesouro
  • HungriaBogárbesouro
  • IslândiaBjallabesouro
  • HondurasCucarachabarata

Mito ou verdade

  • Dizem queO Herbie tinha o número 53 por causa dos 53 cv do Fusca.

    Na verdadeNão. O produtor Bill Walsh escolheu o 53 por causa da camisa de Don Drysdale, arremessador do time de beisebol Los Angeles Dodgers.

  • Dizem queO Fusca branco da capa de Abbey Road era dos Beatles.

    Na verdadeEra de um morador da rua: um 1968 de placa LMW 281F, fotografado em 8 de agosto de 1969. Em 1999, a Volkswagen o comprou num leilão da Sotheby’s, e hoje ele está no acervo da marca, em Wolfsburg.

  • Dizem queO 1600 S foi o único Fusca com dois carburadores.

    Na verdadeFoi o único esportivo de fábrica, mas não o único com dois carburadores: o Fusca Itamar, de 1993 a 1996, também tinha.

  • Dizem queSó quatro países fabricaram o Fusca.

    Na verdadeEle foi feito ou montado em mais de 20. Fabricação completa, de ponta a ponta, foi principalmente na Alemanha, no Brasil e no México.

  • Dizem queOs alemães que pagaram a poupança receberam o carro depois da guerra.

    Na verdadeNenhum dos mais de 330 mil poupadores recebeu o KdF-Wagen prometido.

Um Fusca 1963 pintado como o Herbie, de Se Meu Fusca Falasse
Um Fusca 1963 pintado como o Herbie, de Se Meu Fusca Falasse. Foto: Sicnag

Você sabia?

  1. O Dia Mundial do Fusca é 22 de junho, data do contrato de 1934. A ideia foi de um brasileiro, Alexander Gromow, então presidente do Fusca Clube do Brasil, em 1991; a data foi oficializada em 1995, num encontro em Bad Camberg, na Alemanha.
  2. No Brasil também há o Dia Nacional do Fusca, em 20 de janeiro, que celebra o primeiro Fusca feito aqui.
  3. Em 1960, durante o 1º Salão do Automóvel, a Volkswagen do Brasil navegou com um Fusca anfíbio, com hélice e escapamento elevado, no lago do Ibirapuera; dias depois, na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio.
  4. Em 1969, os irmãos Fittipaldi construíram um Fusca com dois motores, de cerca de 400 cv no total, para as Mil Milhas da Guanabara.
  5. Emerson Fittipaldi foi campeão brasileiro de Fórmula Vê, com mecânica de Fusca, em 1967. Nelson Piquet e Niki Lauda também passaram por categorias com motor Volkswagen.
  6. Os primeiros Fuscas não tinham marcador de gasolina: uma torneira de reserva, junto aos pés do motorista, liberava os últimos litros quando o tanque secava.
  7. O Fusca nº 15.007.034, que passou o Ford Modelo T em 1972, está guardado no museu da Volkswagen, em Wolfsburg.

Na música e no cinema

  • Se Meu Fusca Falasse (1968)

    O filme da Disney transformou o Herbie, um Fusca 1963 de número 53, em estrela, com várias continuações.

  • Fuscão Preto (1981)

    A música de Atílio Versutti e Jeca Mineiro estourou na voz de Almir Rogério e virou filme em 1983, com o próprio cantor e Xuxa.

  • Abbey Road (1969)

    Na capa do disco dos Beatles, um Fusca branco aparece estacionado na calçada da rua.

Um Fusca estacionado numa rua de São Paulo, em 2014
Um Fusca estacionado numa rua de São Paulo, em 2014. Foto: Michaels40001 (placas desfocadas pelo Guia Carros)

Ainda rodando

O último Fusca brasileiro saiu da fábrica há 30 anos, mas ele continua por aí: são 1.939.316 carros registrados, o 5º modelo mais comum do país. Os de 1974 são os mais numerosos, e São Paulo concentra mais de um terço deles.

Nenhum outro carro ficou tanto tempo em primeiro lugar no Brasil nem deixou tanta história. Na ficha técnica do Guia Carros estão todas as versões, de 1969 a 2016.

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