Especial · Nostalgia

Romi-Isetta: como se vendia o primeiro carro feito no Brasil

Desfilou no centro de São Paulo em 1956, teve propaganda na TV, foi o carro nacional mais barato e virou presente para o Pelé. Mas a lei que criou a indústria a deixou de fora.

Uma Romi-Isetta numa rua do centro de São Paulo nos anos 1950
Uma Romi-Isetta numa rua do centro de São Paulo nos anos 1950. Ilustração feita com inteligência artificial para o Guia Carros

Na tarde de 5 de setembro de 1956, dezesseis carrinhos em forma de ovo saíram de uma loja da rua Marquês de Itu, no centro de São Paulo, e desfilaram até o Palácio Episcopal, onde o cardeal Carlos Carmelo Motta os abençoou. Era o lançamento da Romi-Isetta, o primeiro carro de passeio fabricado em série no Brasil, 75 dias antes da perua da Vemag.

O carro vinha de uma fábrica de tornos e tratores do interior paulista e foi vendido com propaganda no rádio, nas revistas e na televisão recém-chegada. Chegou a ser o carro nacional mais barato. Mesmo assim, saiu de linha em 1961, com cerca de 3 mil unidades. Esta é a história de como ele foi vendido, para quem, e por que não deu certo.

  • 5/9/1956dia do lançamento, com desfile no centro de São Paulo
  • cerca de 3 milunidades vendidas até 1961
  • 38 saláriosmínimos era o preço em 1960, o do carro nacional mais barato
  • 72%do peso do carro em peças feitas no Brasil, já no lançamento
1930–1956

Um ovo italiano numa fábrica de tornos

A Isetta nasceu na Itália, em 1953, na Iso, de Renzo Rivolta, que fazia geladeiras e motonetas. O projeto dos engenheiros Ermenegildo Preti e Pierluigi Raggi era um carro mínimo para quem andava de moto: dois lugares, motor de 236 cm³ e uma porta só, na frente. A Iso fez cerca de mil e vendeu licenças para fabricá-la na Alemanha, com a BMW, na França, na Argentina e no Brasil.

Aqui, quem comprou a licença foi a Romi, de Santa Bárbara d'Oeste (SP). A empresa tinha começado em 1930 como a oficina de Américo Emílio Romi, imigrante italiano, e já fazia máquinas agrícolas, tornos e o primeiro trator brasileiro, o Toro, de 1948. A Romi pagava à Iso 3% de royalties por carro e abriu uma linha de montagem ao lado das máquinas. O primeiro carro saiu dela em 30 de junho de 1956, com 72% do peso em peças nacionais.

  1. 1930Américo Emílio Romi abre a Garage Santa Bárbara, origem da Romi.
  2. 1941A empresa começa a fazer tornos, os IMOR.
  3. 1948Sai o trator Toro, o primeiro feito no Brasil.
  4. 1953A Iso mostra a Isetta em Turim, na Itália.
  5. 30/6/1956Primeira Romi-Isetta sai da linha em Santa Bárbara d'Oeste.
1956

O desfile da rua Marquês de Itu

A Romi não vendia direto ao público. Os carros iam para concessionárias, e a primeira foi a Companhia Distribuidora Brasileira, na rua Marquês de Itu, em São Paulo, de onde saiu o desfile de lançamento. Em 16 de novembro de 1956 foi a vez de Porto Alegre, pela Comercial Importadora Nordeste. Houve revenda até em Pernambuco.

O mercado era pequeno: quando a Romi-Isetta chegou, havia cerca de 299 mil automóveis particulares em todo o Brasil, quase todos importados ou montados com peças de fora. Um carro pequeno, econômico e feito aqui era novidade de verdade.

  1. 5/9/1956Lançamento em São Paulo, com 16 carros e a bênção do cardeal Motta.
  2. 16/11/1956Lançamento em Porto Alegre.
  3. 19/11/1956Sai a DKW-Vemag Universal, a primeira aprovada pelo GEIA.
Uma Romi-Isetta 1957 fabricada no Brasil
Uma Romi-Isetta 1957 fabricada no Brasil. Foto: JasonVogel (placa e rosto do motorista desfocados pelo Guia Carros)
1957–1958

Segundo carro, carro de passeio, carro de paquera

A Romi-Isetta ganhou uma das primeiras grandes campanhas de lançamento do país, no rádio, nas revistas e na televisão, que ainda engatinhava. A fábrica a apresentava como o segundo carro da família, o carro do passeio de fim de semana e o carro do estudante. Um anúncio dirigido às mulheres mostrava uma moça saindo de uma gaiola para o carro, com a frase "Agora sou livre".

Pegou na classe média de São Paulo. Virou carro de paquera na avenida Paulista, fez uma caravana de 40 carros de São Paulo ao Rio e de volta e teve corridas promovidas pela própria Romi em Interlagos, em abril de 1958. Também teve garotos-propaganda involuntários: Pelé ganhou um depois da Copa de 1958, e o presidente Juscelino Kubitschek apareceu num em Brasília, em fevereiro de 1960.

  1. 1957Propaganda no rádio, em revistas e na TV, voltada também às mulheres e aos jovens.
  2. 13/4/1958Corridas de Romi-Isetta em Interlagos, promovidas pela fábrica.
  3. 1958Pelé ganha uma Romi-Isetta depois da Copa da Suécia.
Uma Iso Isetta 1953 com a porta frontal aberta: a coluna de direção sai junto com a porta
Uma Iso Isetta 1953 com a porta frontal aberta: a coluna de direção sai junto com a porta. Foto: tonylanciabeta (placa desfocada pelo Guia Carros)
Traseira de uma BMW Isetta 300, com as rodas de trás bem juntas
Traseira de uma BMW Isetta 300, com as rodas de trás bem juntas. Foto: Robotriot (placas ao fundo desfocadas pelo Guia Carros)
1957

A lei que deixou a Romi de fora

Em fevereiro de 1957, o decreto 41.018 criou o plano da indústria automobilística e definiu o que era automóvel de passageiros: um veículo para no mínimo quatro e no máximo sete pessoas, contando o motorista. A Romi-Isetta levava dois adultos e uma criança. Ficou fora da definição e, com isso, dos benefícios fiscais, cambiais e de crédito que o GEIA dava às fábricas aprovadas. Relatos da época dizem que a porta única também pesou contra.

Sem os incentivos, o preço ficou bem acima do planejado; os relatos falam em quase o dobro. Enquanto isso, concorrentes com menos peças nacionais, mas com os benefícios do governo, chegavam às lojas por preços que antes pareciam impossíveis.

  1. 26/2/1957Decreto 41.018: automóvel de passageiros precisa levar de 4 a 7 pessoas.
  2. 1959Começa a fabricação do Fusca nacional, em São Bernardo do Campo.
1959–1961

Quanto vendeu e por que parou

Em 1959, a Romi-Isetta trocou o motor italiano de dois tempos por um BMW de quatro tempos, de 298 cm³ e 13 hp, e ganhou janelas laterais retas. A Romi chegou a planejar uma associação com a BMW para fazer 5 mil carros por ano; a BMW recusou a parte financeira e ficou só no apoio técnico.

Em novembro de 1960, a Romi-Isetta custava Cr$ 370 mil, cerca de 38 salários mínimos. Era o carro mais barato feito no país: o Fusca 1200 e o Willys Dauphine custavam pelo menos 40% mais. Mas era um carro para duas pessoas, e o brasileiro que conseguia comprar o primeiro carro queria levar a família. A última Romi-Isetta foi fabricada em 13 de abril de 1961 e a última vendida em dezembro daquele ano, depois de cerca de 3 mil unidades.

  1. 1959Motor BMW de quatro tempos e janelas retas.
  2. 11/1960Custa Cr$ 370 mil, o carro nacional mais barato.
  3. 13/4/1961A última Romi-Isetta sai da linha.

A ficha da Romi-Isetta

Dados de fábrica. A versão com motor Iso foi feita de 1956 a 1958; a com motor BMW, de 1959 a 1961.

Motor Iso (1956–1958)

Tipo
dois tempos, 2 cilindros
Cilindrada
236 cm³
Potência
9,5 hp a 4.500 rpm
Embreagem
multidisco em banho de óleo

Motor BMW (1959–1961)

Tipo
quatro tempos, 1 cilindro
Cilindrada
298 cm³
Potência
13 hp a 5.200 rpm
Embreagem
monodisco a seco

Desempenho e consumo

Velocidade máxima
85 km/h
Consumo
25 km/l
Câmbio
4 marchas e ré
Transmissão
por corrente, sem diferencial

Medidas

Comprimento
2,285 m
Largura
1,38 m
Altura
1,34 m
Entre-eixos
1,50 m
Bitola dianteira
1,20 m
Bitola traseira
0,52 m

Peso e carga

Peso
350 kg
Carga útil
230 kg
Lugares
2 adultos e 1 criança
Rodas
10 polegadas

Outros

Freios
hidráulicos, a tambor nas 4 rodas
Sistema elétrico
12 V
Portas
1, na frente
Teto
solar de lona

Fonte: ficha técnica da Fundação Romi.

1961–2026

A Romi seguiu, sem carros

Sem o carro, a Romi voltou ao que sabia fazer. Em 1962 virou Indústrias Romi, e hoje é uma das maiores fabricantes de máquinas-ferramenta e de máquinas para plástico do mundo, com ações na bolsa e fábrica na Alemanha, a Burkhardt+Weber, comprada em 2011. A sede continua em Santa Bárbara d'Oeste, no mesmo lugar onde saíam as Isettas.

A Fundação Romi, criada em 1957 por Américo e Olímpia Romi, guarda um museu e um centro de documentação com mais de mil fotos e 1.500 desenhos técnicos do carro. Em 5 de setembro de 2026, nos 70 anos do lançamento, um encontro na fundação reuniu 42 Romi-Isettas, a mais antiga delas o chassi número 3.

  1. 1962A empresa passa a se chamar Indústrias Romi.
  2. 2006Nos 50 anos, a Fundação Romi leva o carro ao Salão do Automóvel.
  3. 5/9/2026Encontro dos 70 anos reúne 42 carros em Santa Bárbara d'Oeste.
Uma Romi-Isetta em Águas de Lindóia (SP), em 2008
Uma Romi-Isetta em Águas de Lindóia (SP), em 2008. Foto: Renzo Maia, recortada por Mr.choppers (criança ao fundo desfocada pelo Guia Carros)
Uma Iso Isetta 1953 no museu Louwman, na Holanda
Uma Iso Isetta 1953 no museu Louwman, na Holanda. Foto: Alf van Beem
Uma BMW Isetta 300 num encontro do Isetta Club em Bad Wörishofen, na Alemanha, em 2015
Uma BMW Isetta 300 num encontro do Isetta Club em Bad Wörishofen, na Alemanha, em 2015. Foto: Lothar Spurzem (placa desfocada pelo Guia Carros)

Mito ou verdade

  • Dizem queA Romi-Isetta foi o primeiro carro aprovado pelo governo.

    Na verdadeNão. A primeira aprovada pelo GEIA foi a perua DKW-Vemag Universal, lançada em 19 de novembro de 1956. A Romi-Isetta chegou antes, em setembro, mas ficou fora do programa.

  • Dizem queEla foi fabricada só até 1958 ou 1959.

    Na verdadeNão. A produção foi até abril de 1961, já com motor BMW, e as últimas unidades foram vendidas em dezembro daquele ano.

  • Dizem queO governo a recusou porque tinha uma porta só.

    Na verdadeEm parte. O decreto de 1957 exigia de quatro a sete lugares, e ela levava dois adultos e uma criança. A porta única aparece nos relatos, mas não no texto da lei.

  • Dizem queJK desfilou numa Romi-Isetta na inauguração de Brasília.

    Na verdadeNão. A foto famosa de Juscelino numa Romi-Isetta em Brasília é de 2 de fevereiro de 1960, durante a Caravana da Integração Nacional, dois meses antes da inauguração.

Você sabia?

  1. Para sair, o motorista abria a frente inteira: a coluna de direção era articulada e ia junto com a porta.
  2. Se uma batida emperrasse a porta, a saída era pelo teto solar de lona.
  3. A bitola traseira tinha só 52 centímetros, menos da metade da dianteira. Por isso não precisava de diferencial.
  4. Pelé ganhou uma depois da Copa de 1958. O carro chegou numa caixa de mais de 4 metros, e ele se decepcionou com o tamanho.
  5. Fazia 25 km com um litro, segundo a fábrica.
  6. Na Alemanha, a BMW fez 161.728 Isettas, de 1955 a 1962. Foi o carro que ajudou a salvar a marca no pós-guerra.

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