A história do Ford Maverick no Brasil
Chegou em 1973 para enfrentar o Opala com um V8, deu de cara com a crise do petróleo, saiu de linha em 1979 e virou um dos clássicos mais valorizados do país. E, em 2022, o nome voltou numa picape.
Ele chegou em 1973 para enfrentar o Opala, com um V8 que ninguém mais oferecia no segmento, e deu de cara com a primeira crise do petróleo. Virou sinônimo de beberrão, saiu de linha em abril de 1979 com 108.106 unidades e, décadas depois, passou a valer mais que muita picape zero-quilômetro. O Ford Maverick é a história de um carro que chegou na hora errada e acabou virando lenda.
Contamos como a Ford escolheu um projeto americano de 1969 para o Brasil, as versões ano a ano, o motor de quatro cilindros que salvou as vendas, as vitórias nas pistas e a volta do nome, em 2022, numa picape híbrida. Com fotos de divulgação da Ford, a ficha de cada versão e quantos Mavericks ainda estão registrados no país.
- 108.106Mavericks produzidos no Brasil, de 1973 a 1979
- 197 cvbrutos no V8 302 importado que equipava o Maverick GT
- 17.667Mavericks ainda registrados no Brasil (julho de 2026)
- R$ 500 milpagos por um Maverick GT 1974 restaurado, recentemente
Por que um Maverick?
Em outubro de 1967, a Ford assumiu o controle da Willys-Overland do Brasil e herdou fábricas em São Bernardo do Campo, Taubaté e Jaboatão, o Corcel em desenvolvimento e o velho Aero-Willys. Faltava um carro para brigar com o Chevrolet Opala, lançado em 1968, que vendeu 72 mil unidades em 1972.
A Ford fez uma pesquisa com consumidores e carros brancos, sem marca: Opala, Corcel, o Taunus alemão e o Maverick, que vendia muito nos Estados Unidos desde abril de 1969. O Taunus ganhou, mas exigiria um motor novo e uma suspensão traseira cara. O Maverick, sim, aproveitava o motor de seis cilindros e o câmbio do Aero-Willys e do Itamaraty. A decisão foi comunicada ao presidente da República em março de 1972, e o carro foi mostrado no Salão do Automóvel de novembro daquele ano.
- 17/4/1969O Maverick é lançado nos EUA, sucessor do Falcon.
- 10/1967A Ford assume a Willys-Overland do Brasil.
- 3/1972Decisão de fabricar o Maverick no Brasil.
- 11/1972Pré-estreia no VIII Salão do Automóvel.
"Um carro contra a rotina"
As vendas começaram em junho de 1973, com o slogan "um carro contra a rotina". O cupê de duas portas vinha em três versões: Super e Super Luxo, com o seis-cilindros de 3.016 cm³ e 112 cv brutos, e o GT, com o V8 302 de 4.949 cm³ e 197 cv brutos, importado montado do Canadá e dos Estados Unidos. A linha era feita na ex-Willys de São Bernardo do Campo, no bairro do Taboão. Em novembro chegou o sedã de quatro portas, com 18 centímetros a mais de entre-eixos.
A estreia nas pistas não podia ser melhor: em agosto de 1973, um Maverick venceu as primeiras 25 Horas de Interlagos, 47 segundos à frente do Opala de Bob Sharp. A Ford queria vender 30 mil até o fim do ano. Aí veio outubro de 1973, e o preço do petróleo quadruplicou.
- 6/1973Começam as vendas do cupê: Super, Super Luxo e GT.
- 8/1973Vitória nas 25 Horas de Interlagos.
- 10/1973Primeira crise do petróleo.
- 11/1973Chega o sedã de quatro portas.
Os Mavericks de 1973 e 1974
-
1973Maverick Super 3.0
A versão de entrada, só com o seis-cilindros de 112 cv brutos herdado do Aero-Willys, que ganhou uma galeria externa de água para esfriar o sexto cilindro.
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1973Maverick Super Luxo 3.0
Mais acabamento sobre a mesma mecânica. Na época, dizia-se do seis-cilindros que tinha "desempenho de quatro-cilindros e consumo de V8".
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1973Maverick Super Luxo, de trás
A traseira em "fastback", com lanternas largas, era a marca do cupê.
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1974Maverick Sedan Super Luxo 3.0
O quatro-portas, de novembro de 1973, tinha 2,79 m de entre-eixos e foi também usado como táxi. Foram 11.879 sedãs.
A crise e o quatro-cilindros
Com a gasolina disparando, o Maverick virou símbolo de carro beberrão. As vendas, que chegaram a cerca de 3.500 por mês, caíram para 663 em dezembro de 1974. Para responder ao Opala 250-S, de julho de 1974, a Ford ainda homologou o Maverick Quadrijet, um V8 com carburador de corpo quádruplo e 257 cv brutos, vendido em kit, a partir de 1975, por cerca de 22% a mais que o GT. Foram pouquíssimos.
A saída de verdade veio em meados de 1975: o motor 2.3 OHC de quatro cilindros, de 99 cv brutos, feito na nova fábrica de motores da Ford em Taubaté. Ele virou motor de série em todas as versões menos o GT, e era mais rápido e mais econômico que o seis-cilindros. Nos cinco meses seguintes, as vendas quase triplicaram: 12.113 carros, contra 4.499 nos cinco meses anteriores. A linha 1975 trouxe ainda freios a disco de série e câmbio no assoalho.
- 12/1974As vendas caem para 663 carros no mês.
- 1974Homologação do Maverick Quadrijet, de 257 cv brutos.
- meados de 1975Chega o motor 2.3 de quatro cilindros, feito em Taubaté.
Os Mavericks de 1975 e 1976
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1975Maverick Super 2.3
Com o quatro-cilindros, chegava a 155 km/h e ia de 0 a 100 km/h em cerca de 17 segundos, melhor que o seis-cilindros.
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1975Maverick Sedan Super 2.3
O sedã também ganhou o motor 2.3, que virou o padrão da linha.
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1975Maverick Sedan Super Luxo 4.9 V8
O V8 continuava disponível como opcional nas versões de luxo, para quem não abria mão do ronco.
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1976Maverick GT 4.9 V8
O esportivo da família: V8 de 197 cv brutos, cerca de 180 km/h e 0 a 100 km/h em 11 segundos nos testes da época. Foram 10.573 GTs.
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1976Maverick GT, de perfil
O perfil do cupê, com as faixas laterais e a traseira em queda, é a imagem que ficou do Maverick.
O Maverick nas pistas
Nas corridas, o Maverick foi o grande rival do Opala. A equipe oficial, a Greco Competições, de Luiz Antônio Greco, venceu na Divisão 1 e na Divisão 3, onde o V8 302 preparado passava de 450 cv e chegava a 240 km/h em Interlagos. O Quadrijet estreou vencendo as 12 Horas de Goiânia, na inauguração do autódromo, em julho de 1974, com Bob Sharp e Marivaldo Fernandes.
O mais famoso de todos foi o Maverick Berta, preparado na Argentina por Oreste Berta para a equipe Hollywood, com chassi tubular e cerca de 450 cv, pilotado por Luiz Pereira Bueno e Tite Catapani em 1974 e 1975. Hoje está restaurado num museu em Passo Fundo (RS). Em setembro de 1975, a Ford ainda promoveu o Torneio de Campeões, com 35 Mavericks de quatro cilindros sorteados entre os pilotos, vencido por José Carlos Pace. No fim de 1976, as corridas foram proibidas por causa da crise do petróleo e só voltaram em 1977, com álcool.
- 8/1973Vitória nas 25 Horas de Interlagos.
- 7/1974O Quadrijet vence as 12 Horas de Goiânia.
- 9/1975Torneio de Campeões, vencido por José Carlos Pace.
- fim de 1976Corridas proibidas pela crise do petróleo.
LDO, Fase 2 e o fim
No Salão de novembro de 1976 veio a Fase 2, linha 1977: nova grade, lanternas maiores, bitola traseira mais larga e bancos novos. Estrearam a LDO, de "Luxuosa Decoração Opcional", e o GT de quatro cilindros, com capô de duas entradas de ar. O Maverick de número 100 mil saiu em 1977.
Mas o Corcel II, de novembro de 1977, tomou o mercado de dentro de casa, e a crise não dava trégua. Uma reestilização no estilo do Corcel II chegou a ser estudada e não saiu. A produção acabou em abril de 1979, depois de 108.106 unidades: 85.654 cupês, 10.573 GTs e 11.879 sedãs. O lugar dele contra o Opala só seria ocupado em 1981, pelo Del Rey.
- 11/1976Fase 2, LDO e GT de quatro cilindros.
- 1977O Maverick de número 100 mil.
- 11/1977Chega o Corcel II.
- 4/1979Fim da produção.
Os Mavericks de 1977 a 1979
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1977Maverick LDO 2.3
A LDO, "Luxuosa Decoração Opcional", era a versão mais caprichada da Fase 2.
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1977Maverick GT 2.3
Com a crise, o GT ganhou opção de quatro cilindros, com o visual esportivo e o capô de duas entradas.
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1977Maverick GT 2.3, em ação
A Ford mostrava o GT 2.3 como carro jovem, em fotos cheias de gente.
De encalhe a lenda
O carro que sofreu com a fama de beberrão virou, com o tempo, um dos clássicos nacionais mais desejados. Um Maverick GT 1974 restaurado foi vendido recentemente por R$ 500 mil, e outro, em azul Regata, foi anunciado por R$ 440 mil. Exemplares comuns aparecem entre R$ 165 mil e R$ 290 mil.
Ele também ficou na cultura popular: aparece em "2 Filhos de Francisco" (2005) e na novela "Cidadão Brasileiro" (2006). E rendeu histórias curiosas, como a da concessionária Souza Ramos, que criou por conta própria uma perua Maverick em 1978, da qual saíram cerca de 150 unidades, segundo estimativas.
- 1978A perua Maverick feita pela concessionária Souza Ramos.
- 2005Aparece em "2 Filhos de Francisco".
Quantos Mavericks de cada ano ainda estão registrados
Mavericks registrados hoje nos Detrans, pelo ano de fabricação. Os de 1976 são os mais numerosos.
Fonte: Senatran, frota de 07/2026, organizada pelo Guia Carros. Carros fora desse período e os sem ano informado (602) ficam fora do gráfico. Registrado não quer dizer rodando: muitos carros antigos seguem no cadastro sem circular.
Ver em tabela
| Ano de fabricação | Registrados |
|---|---|
| 1973 | 286 |
| 1974 | 3.663 |
| 1975 | 3.249 |
| 1976 | 4.863 |
| 1977 | 2.318 |
| 1978 | 1.913 |
| 1979 | 773 |
Onde estão os Mavericks hoje
- São Paulo 5.6640,2 a cada mil carros do estado
- Paraná 2.8140,4 a cada mil carros do estado
- Rio Grande do Sul 2.8130,4 a cada mil carros do estado
- Minas Gerais 1.6640,2 a cada mil carros do estado
- Santa Catarina 1.0260,2 a cada mil carros do estado
- Rio de Janeiro 8620,1 a cada mil carros do estado
- Goiás 5980,2 a cada mil carros do estado
- Mato Grosso do Sul 3090,3 a cada mil carros do estado
- Distrito Federal 2910,2 a cada mil carros do estado
- Mato Grosso 2510,2 a cada mil carros do estado
Senatran, organizada pelo Guia Carros. Mais números da frota do Maverick →
Todas as versões do Maverick, ano a ano
As versões do cupê que o Guia Carros tem no catálogo. Toque numa versão para ver a ficha técnica.
Fase 11973–1976 · 8 versões
- 1976
- GT 4.9 V8
Versões do catálogo do Guia Carros, pelo ano-modelo. Toque numa versão para abrir a ficha técnica.
O nome volta, numa picape
Em 15 de fevereiro de 2022, o nome Maverick voltou ao Brasil numa picape compacta feita em Hermosillo, no México. A Lariat FX4 tinha motor 2.0 EcoBoost de 253 cv, câmbio automático de oito marchas e tração integral, por R$ 239.990, e o primeiro lote, de 300 unidades, esgotou em 24 horas.
Em maio de 2023 chegou a Maverick híbrida, com motor 2.5 e um elétrico que somam 194 cv, por R$ 244.890. Na linha 2026, lançada em maio de 2025, vieram as versões Tremor e Lariat Black, a gasolina. Dos dois Mavericks, um nasceu na crise do petróleo e outro na era da eletrificação.
- 15/2/2022A picape Maverick FX4 chega ao Brasil.
- 25/5/2023Maverick Lariat Hybrid, de 194 cv.
- 27/5/2025Linha 2026, com Tremor e Lariat Black.
A picape Maverick
Mito ou verdade
Dizem que
O Maverick foi escolhido por ter vencido a pesquisa com consumidores.Na verdadeNão. O Taunus alemão foi o preferido, mas exigiria motor novo e uma suspensão cara. O Maverick aproveitava a mecânica do Aero-Willys.
Dizem que
O Maverick de seis cilindros era mais rápido que o de quatro.Na verdadeNão. O 2.3 chegava a 155 km/h e ia de 0 a 100 em cerca de 17 segundos; o seis-cilindros, a cerca de 150 km/h e 20 segundos.
Dizem que
O Quadrijet foi lançado no fim da carreira.Na verdadeNão. Foi homologado em 1974, como resposta ao Opala 250-S, e aposentado em 1976.
Dizem que
O sedã só chegou em 1975.Na verdadeNão. O quatro-portas foi lançado em novembro de 1973, cinco meses depois do cupê.
Você sabia?
- O logotipo do Maverick não tinha o chifre de boi no "V" do modelo americano: o gerente de marketing da Ford não quis arriscar piadas.
- Foi o primeiro Ford brasileiro sem quebra-vento.
- Um Maverick de seis cilindros participou do I Raid da Integração Nacional, que largou do Chuí em outubro de 1974 e percorreu 16.755 km.
- O GT tinha direção mais rápida: 5,5 voltas de batente a batente, contra 6,5 nas outras versões.
- O V8 302 do GT vinha montado do Canadá e dos Estados Unidos; o quatro-cilindros era feito em Taubaté.
Todas as versões do Maverick no catálogo →Mais Nostalgia →
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